Sou um viajante que vago pelo mundo, trazendo comigo coisas, que apesar de simples são complexas, apesar de leves, são pesadas, apesar de tudo são minhas.
Carrego comigo sem beira e nem rumo, apenas uma mala de couro singelo e formato pequeno. Dentro dela tenho coisas valiosas, coisas que carrego desde outrora em busca de abrigo.
Dentro da maleta, tenho segredo, que não são bem segredos. São confidências, algumas minhas, algumas suas, mas que guardo em sigilo e carrego comigo, trancadas ali dentro.
Tem ali também sorrisos, alguns sinceros como os daqueles bebês. Já alguns falsos como os de hiena. Mesmo assim os carrego, é necessário conhecer ambos para saber a autenticidade de cada.
Dentro desta maleta carrego dores, que me são pesadas, algumas são deixadas quando pesam demais. Outras as trago comigo, como instrumento de bússola que me mostra o caminho que devo realmente confiar.
Dentro de minha mala, tenho alguns medos, talvez nem sejam medos, mas sim receios. Receio de “ois” e de “tchaus”, de seguir em frente ou voltar atrás.
Dentro de minha bagagem, trago desejos, alguns devaneios, outros sensatos demais.
Trago dentro de minha sacola, a liberdade, como criança que balança rapidamente no parque ao vento. Dá um frio na barriga o movimento e assim sendo, ainda trago comigo a prisão, não por escolha, é mais por imposição de alguns que aconselharam-me ao sair:
_Leve-a, pode precisar!
Trago na maleta marrom escura, a esperança de abrigo, talvez que nem seja só disso, talvez precise daquilo que nem eu sei que preciso. Mas sei que a trago. Nunca a vi ali dentro, mas sei que não a esqueci. Deve estar no fundo, ou misturada, ou em algum canto, é tanta coisa que quando vejo me perco.
Trago na mala, encantos, alguns grandes, alguns enormes, outros imensos. Não existem encantos pequenos. Encanto que é encanto já é encanto por si só.
Trago comigo, meus pés descalços, peito à frente, cabeça erguida. Queixo empinado, como quem se orgulha. Como alguém que esnoba. Mas não é esta a questão. Não noto o mundo de cima para baixo por opção, nem por “esnobação”, o meu queixo pra cima é aquele de quem engole o choro, e que mesmo com uma imensa vontade de gritar se cala, é a dor consentida, orgulhos feridos, decepções definidas. Mas isso já não me maltrata, há remédio que sara.
Trago além dos pés descalços, mãos sacudidas, de quem trabalha e disso não tem medo. Mãos que acariciam! Ah! Trago na mala, carinhos, gestos de incentivo e muita força de vontade.
Essa é minha bagagem. Está certo que me pesa, mas compensa. De nada me serviria a vida se não a tivesse comigo.
Continuarei com essa bagagem toda viajando. Procurando. Às vezes eu paro e me distraio, tiro algo e abandono. Algumas vezes paro, observo, e guardo mais algo que um dia poderá me servir.
Não sei o que coloco ali todos os dias, nem me lembro quando coloquei ali cada coisa. Achei até que minha maleta não tinha marcas, e que fosse de barracas, daquelas de brechó. Esses dias eu percebi sua etiqueta, sua marca é gloriosa e vi o escrito que se designava Fé.
Carrego comigo minha maleta, de erros e acertos, sentimentos e medos, etiqueta. Pés descalços, mãos sublimes e acima de mim apenas asas. Um dia achei que fossem anjos que me perseguiam, olhava para trás e já não os via. Olhava para cima e penas me caíam. Eram brancas e imensas. Pensei:
_São anjos que fazem festas.
Engraçado tinha impressão de que eram tão grandes que chegavam a tocar o céu.
Um dia abrindo minha maleta lembrei de um achado, que há tempos encontrado ali estava esquecido. Era um pequeno espelho já quebrado, que refletia em mim, algo inimaginável.
Quando me vi, notei que não carregava apenas malas, mas asas que um dia me ajudarão o caminho seguir.
Os caminhos são assim, as bagagens são assim. A utilidade das asas?…
Os sonhos me são assim.